damocles
Por Rafael Leão¹, Sócio e Economista da Parallaxis Economics & Data Science

A Espada de Damocles está, supostamente, pairando de novo sobre a Grécia. Sendo assim, os gregos devem aceitar que o seu país continuará sendo executado e “microgerido” pelo comitê de credores estrangeiros, ou então a Grécia será expulsa da Zona Euro.

Gostaria de deixar claro, que ao meu ver, esta ameaça é infundada. A Grécia não pode ser empurrada para fora do Euro, sem que o euro colapse em seguida, e esse é o grande trunfo do recém eleito Tsipiras, do partido Syriza, o qual eu não considero de esquerda radical, mas um partido anti-austeridade, que quer resgatar política de estado de bem-estar social, ligado originalmente a esquerda. E, juntamente com o seu ministro das Finanças, Yanis, o qual eu acompanho os trabalhos acadêmicos e blog desde 2008.

Primeiro ponto, não existe nenhum mecanismo formal através do qual qualquer Estado-Membro ou instituição da União Europeia possa iniciar um processo, que leve à ejeção da Grécia da Zona do Euro. Na verdade, a Zona do Euro foi concebida de forma a faltar, por assim dizer, este mecanismo com o propósito explícito de impor a sua permanência dentro do mercado comum.

Óbvio, que existe uma série de formas em que o poder pode ser exercido sobre um parceiro fraco, digamos desesperado o suficiente, para aceitar algum acordo também desesperado.

É o que tem acontecido até agora, com as medidas de austeridade. Por exemplo, os membros mais poderosos UE têm apoiado o governo grego até então, pelo menos até antes do resultado desta última eleição, forçando a Grécia a ser “tomada para uma limpeza”, caso contrário seria melhor que preparassem uma estratégia de saída. Então esses parceiros mais poderosos vêm e açucaram, ao mesmo tempo, essa pílula amarga da Austeridade, com promessas de ajuda, etc.

Segundo Ponto. Mesmo que o governo grego esteja convencido de comprar essa briga e iniciar o processo de saída da zona do euro, o resultado seria revelador da política da criação da zona do euro.

As razões são evidentes para qualquer pessoa que esteja preparada para simular em sua mente a cadeia de acontecimentos que irá seguir.

Começo a partir deste ponto, a fazer uma série de especulações dessa cadeia de eventos, as quais considero com a maior probabilidade de ocorrer.

Para sair do Euro, o Primeiro Ministro grego, Tsipiras, teria que convocar uma sessão parlamentar extraordinária, eventualmente numa sexta-feira, durante a qual iria explicar ao parlamento e à nação, que a Grécia vai se retirar do euro pela manhã seguinte. Deixando de lado as dificuldades políticas colossais e processuais que isso implicaria, contudo, dada a legitimidade do partido recém-eleito e do cansaço grego com as medidas de austeridade, creio que a nova formação do parlamento poderia até aprovar essa saída.

Voltando. Em seu discurso, ele também iria declarar que a seguinte segunda-feira e terça-feira viriam a ser feriados, durante o qual os bancos se preparariam para a mudança para o Dracma (digamos, Novo Dracma), sendo cunhadas (como o PM teria dito ao Parlamento) “nas vísceras do Banco do Grécia”. O retorno da moeda soberana.

Minutos depois de anúncio do primeiro-ministro no Parlamento, todos os caixas eletrônicos na Grécia secariam (os clientes dos bancos retirariam todo o dinheiro que pudessem).

A atividade econômica cessaria por completo e em seguida, na quarta-feira, filas enormes se formariam fora dos bancos para retirar quantos Dracmas fossem possíveis, antes que a nova moeda se desvalorizasse ao máximo.

Ciente destes acontecimentos, o governo introduziria uma série de medidas “draconianas”: teto para saques das contas bancárias, espaço entre estes saques por um período mínimo, digamos, de seis meses, os controles de preço seriam estabelecidos sobre alimentos básicos (causando assim escassez desses bens, pois os vendedores estocariam estes produtos esperando maiores preços a frente), todos os contratos públicos seriam convertidos imediatamente em NovoDracma, controles de capital seriam reestabelecido na fronteira grega e a Grécia rescindiria o Tratado de Shengen imediatamente (recuperando os controles nas fronteiras para viajantes, tanto entrada como saída), etc.

No nível mais fundamental, os bancos gregos ficariam de imediato, em uma situação de insolvência e operariam apenas com base na liquidez proporcionada pelo Banco Central da Grego. Isso provocaria uma desvalorização ainda maior do Novo Dracma em relação ao Euro, e por fim, no momento em que os bancos fossem reabertos, a inflação viraria um tumulto. Crise de uma moeda sem credibilidade, com governo fraco e endividado externamente.

Seguindo. Nesse meio tempo, o governo seria forçado a declarar um padrão imediato sobre os Títulos soberanos e do início das negociações com os credores da dívida, incluindo o FMI.

Digamos que, feito este “grande favor” a Grécia terá feito o resto da zona euro, cair sobre a sua própria espada.

Ah, mas a Alemanha e os demais países correriam para o lado da Grécia, oferecendo ajuda para salvar o que restaria dos bancos gregos e facilitando significativamente os termos das dívidas existentes com o FMI, BCE e de mais.

Ledo engano, a Alemanha não pode se dar ao luxo de ser extremamente generosa com a Grécia.

Para conter o grande “evento financeiro” desse turbilhão, a Alemanha e países superavitários (ou a triple-A) teriam que:

(a) Recapitalizar o BCE (da ordem de pelo menos € 190 bilhões);

(b) Resgatar os bancos franceses e alemães expostos não só a dívida soberana Grega, mas também importante, às dívidas do setor privado grego (incluindo os bancos comerciais gregos);

(c) Mais QE, injetando liquidez nos mercados da Europa para acalmar seus nervos.

Vamos dizer que a Alemanha, Holanda, Áustria e Finlândia, vejam essa cadeia de eventos como desagradáveis, mas necessárias calamidades, que no mínimo, livrariam a zona do euro do seu membro mais incômodo.

O problema é que essa podridão não pode, e não iria parar por aí. Imediatamente, na sexta-feira que o PM grego fizesse seu pronunciamento fatídico, o PMs Português e Irlandês deveriam fazer seus próprios discursos, por exemplo, impondo retiradas máximas aos saques dos bancos e controles de capitais entre fronteiras.

Pois, se esses controles não forem impostos, a fuga de capitais destes países considerados mais frágeis iria se transformar em um tsunami como nunca visto antes.

O raciocínio por trás é o seguinte: A expectativa é que os agentes esperem que outros agentes correlacionem os eventos gregos com estes países, e esperem uma grande probabilidade de uma saída dos demais Países da zona do euro, o que serviria suficientemente como um gatilho.

Sem controles de capitais, os bancos desses outros países ficariam de joelhos, suas economias ficariam carentes de liquidez, o setor imobiliário cairia para níveis ainda mais baixos (os proprietários venderiam a fim de receber seus euros e mandar para fora), o mercado de capitais jogaria todos os valores dos papeis da periferia europeia no lixo, e nem mesmo o BCE seria capaz de salvar o dia.

Uma vez que os controles de capitais fossem colocados em prática nesses países, os rendimentos dos títulos espanhóis iriam passar a marca de 7%, seguido rapidamente por um efeito semelhante sobre as taxas dos títulos italianos e belgas. Ao ter violado as regras mais básicas da UE (em relação à “liberdade” de capital para se movimentar), os governos de Lisboa e Dublin começariam a flertar com a ideia de um default parcial de suas dívidas soberanas.

Veríamos um consequente aumento nos spreads e CDS (Credit Default Swaps), o que iria empurrar a Espanha, Itália e Bélgica penhasco a baixo.

Nesse ponto, o próprio Fundo Soberano Europeu de Estabilização terá que se organizar para um possível resgate, enquanto o eleitorado alemão, finlandês, holandês e austríaco cobraria de seus governos uma redução do déficit destes países; para socorrer a si próprios, culminando com uma saída do euro.

Confrontados com um projeto de lei para salvar a zona do euro, o qual a Alemanha não pode pagar, Angela Merkel faria seu próprio anúncio, na tarde próxima sexta-feira – uma semana após o discurso dramático do Tsipiras em Atenas:

“A Alemanha”, Angela Merkel vai pronunciar, “terá de voltar ao Novo Marco na manhã de quarta-feira” (precisamente uma semana após a criação da Dracma Novo). Ao contrário da semana anterior, quando os caixas automáticos gregos secaram, os alemães (e não-alemães com sorte de possuir uma conta bancária na Alemanha) tentariam de tudo para colocar seus euros nas suas contas bancárias (tanto nos caixas eletrônicos ou através da internet) em antecipação da apreciação inevitável do Novo Marco alemão.

Na quarta-feira, as filas dos bancos alemães serão formadas por pessoas desesperadas para depositar quaisquer euros soltos que possam ter ‘apanhado’ dentro das suas contas. Na mesma tarde, o Novo Marco teria apreciado por pelo menos 50%, um golpe terrível para o modelo alemão de crescimento por meio de superávit em balança comercial. Culminando com uma nova recessão que iria suceder o árduo trabalho dos trabalhadores alemães.

Conclusão:

O cenário acima é tão próximo de uma certeza que se pode esperar do mundo às avessas de nossa economia política. Os líderes europeus sabem disso, o BCE está ciente disso, o FMI também, não tenho nenhuma dúvida.

 Naturalmente, nenhum dos citados provam que a Alemanha e o resto dos países superavitários, em algum momento, possam decidir que eles querem ejetar a Grécia, que eles já não estão dispostos a partilhar a mesma moeda com a Grécia e etc.

Contudo, se optar por abandonar a Grécia de “seu” sistema monetário, a única forma sensata para se fazer isso é por uma opção de saída do euro deles próprios.

Em outras palavras, ao invés de apoiar o Tsipiras para fazer seu grave anúncio aos parlamentares gregos, em alguma Sexta à tarde, sombria, a Frau Merkel, que teria que tomar a iniciativa (talvez em associação com governos como o da Áustria, Finlândia e Holanda) e declarar saída da Alemanha do euro.

É neste sentido que a ameaça de expulsar a Grécia a partir do euro eu acredito ser uma forma barata de chantagem, vazia, cuja finalidade é exatamente de impressionar o desalentado Norte da Europa e seus os eleitores, de que a Grécia merece outro empréstimo enorme, e caro. Como tantas vezes acontece através de chantagens explícitas, essa ameaça incrível funciona a serviço de um objetivo mal concebido: A emissão de um novo empréstimo gigantesco para um país insolvente que nem precisa nem quer isso.

Por fim, não acredito que o recém eleito Primeiro Ministro grego irá buscar sair do euro, mas lutará, como hábil negociador que é, para diminuir ou mesmo cessar as imposições de austeridades sobre seu país, à sombra de uma possível saída da Grécia.

Resumindo, para a Zona do Euro como um todo, é preferível ser dono de uma moeda a escravo de duas, como diz o ditado Grego. Mais do que isso, ainda acredito que a mescla de default parcial, reestruturação, reescalonamento e novos pacotes de ajuda, com uma maior integração fiscal e orçamentária entre os países, tem se mostrado o cenário mais favorável no médio prazo.

¹ – Mestre em Economia pela Universidade Panthéon Sorbonne/PUC-SP, Bacharel em Economia pela PUC-SP. Atuou como analista econômico em banco de investimento (BNP Paribas), agências classificadora de riscos (Austin Rating) e como Economista na Federação Brasileira de Bancos até 2014. Academicamente tem experiência na área de Economia, com ênfase em Crescimento e Desenvolvimento Econômico, Flutuações e Planejamento Econômico, atuando principalmente nos seguintes temas: Ciclos econômicos, Teoria Monetária Moderna, Macroeconomia e Economia Internacional.