coxinha

Post escrito pelo economista, filósofo F.Ogata.

 

“Simulacros, fantasmas, monstros. Nada disso me assustava quando era pequeno. Tudo bem… talvez o filme do exorcista me deixava de cabelos em pé. O medo, na verdade, eram as histórias que minha mãe contava sobre a coxinha. Medo de não poder comer uma coxinha como aquela, tão calorosa, suculenta, cheia de frango cremoso. Aí algo singular: Coxinha é simplesmente aquele alimento tão famoso nos dias de hoje, metáfora viva em forma de comida, relativamente política.

Naquela época raramente saía de casa pra me alimentar no aclamado “barzinho”, sempre  ia comer em algum restaurante: feijoada, churrascaria, fast food. Nunca ia no tal bar que vendia uma coxinha pra lá de gordurosa. Minha mãe sempre dizia que era a melhor coxinha da cidade e olha… São Paulo é imensa. Apesar de falar tanto da coxinha, ela não deixava de maneira alguma eu comer aquela coxinha, pois dizia que fazia muito mal à saúde.

Era um costume levar uma lancheira pra escola, esta por sua vez continha alguns apetrechos fartos. De vez em nunca, minha mãe me dava umas moedas, no máximo  50 centavos pra eu comprar o que gostava. A coxinha que era tão famosa custava 2,50 (na época era bem caro), e infelizmente não se encontrava perto da minha escola.  Depois de muito tempo ter juntando os 2,50, difícil tarefa a uma criança volumosa, resolvi  me programar  pra comprar a tal coxinha. 

O tão aclamado dia tinha chegado. A curiosidade era maior que a fome, o jeito que minha mãe contava sobre a coxinha era tão espetacular que me dava água na boca só de imaginar. Três da tarde, cheguei em casa e fui pesquisar no livro como eu chegava no barzinho que minha mãe sempre falava.  Percebi que dava pra ir apé, porém ia ter que caminhar um tanto. Antes de sair, vi uma moça comentando sobre inflação. Não tinha nem ideia do que isso significa (e continuo não entendendo muito bem…), enfim, peguei os 2,50 que juntei por uns meses e fui no barzinho. 

-Moço, por favor, eu quero uma coxinha (Suando do calor e inspirado pela ideia de ficar volumoso comendo aquela coxinha)

-Garoto, você tem dinheiro aí? quem está com você? 

-Tenho sim. Meu amigo está lá fora (mentira)

Ok. 

O atendente fitou-me por alguns segundos com ar de suspeita, mas resolveu me dar uma coxinha. Ele tirou da prateleira o alimento que devia ter uns quatro ou cinco centímetros de altura e quinhentos de largura. Meus olhos brilhavam de fome e alegria. O atendente ia vagarosamente colocando a coxinha em minhas mãos, quando disse:

-Chefe, 3,25.

Eu não sabia o que falar, eu tinha 2,50, era tudo, não sabia o que falar, como reagir. Respondi:

-Só tenho 2,50…

-Desculpa, peça pro seu amigo mais 75 centavos, não vou te vender por 2,50. Inflação subiu.

Foi nesse dia que eu odiei a chamada “Inflação”. Anos mais tarde eu odiei ainda mais na faculdade…”