*Por André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos e amigo da Parallaxis Economics & Data Science

Em psicologia delirium tremens é uma psicose gerada pela abstinência ou suspensão do uso de drogas, em especial do álcool. O corpo do paciente se revolta, por assim dizer, com a ausência da substância o que cria movimentos involuntários e até delírio criando um quadro disfuncional daquele ser humano. A discussão atual sobre o fim do Quantitative Easing nos EUA e do começo do Quantitative Easing na Europa me lembra demais essa patologia e me preocupa sobremaneira o grau de delírio nas discussões econômicas atuais, tanto domésticas quanto externas.

Uma evidência desse caso clínico pode ser observado nas constantes ameaças do presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, em mandar de vez às favas os bons modos monetaristas e dar um passo em direção ao Quantitative Easing na Europa continental. Essa ameaça ganhou o coro de Haruhiko Kuroda, presidente do Banco Central Japonês (BoJ), que de alguma maneira vem fazendo sua versão nipônica do QE há algum tempo.

O delírio consiste numa incoerência lógica que tem a seguinte dinâmica: quanto pior está mais dinheiro se imprime, quanto mais dinheiro se tem mais sobem as bolsas mundiais, justamente os ativos que são ligados a atividade real que são as empresas, atividade esta que está mal e por isso se imprime mais dinheiro. O mercado não sabe para onde ir e acaba girando em si mesmo como um peão. Os gestores querem “vender”, mas não tem certeza disso, logo comemoram com euforia renovada medidas monetárias extraordinárias como estas aventadas por Draghi e Kuroda.

Peketty, autor do Capital do Século XXI, deveria reeditar seu livro com os dados recentes. O descolamento entre retornos financeiros e atividade devem ter chegado a patamares extravagantes no mínimo. Este detalhe foi notado pelo professor Bresser Pereira em entrevista recente ao comentar a obra do economista francês.

A capacidade de análise sóbria se deteriorou bastante. Com juros zerados na Europa e no Japão os EUA não terão espaço para “subir” juros, ainda mais porque o presidente Obama simplesmente não tem como usar o instrumento fiscal. A Casa Branca só tem o canhão monetário ao seu dispor. É isso que o mercado não vê e que gera desencontros racionais. O mercado, como disse, quer vender, mas para fazer isso o mercado deseja que o FED siga na frente vendendo, mas o FED não vai poder fazer isso.

Por aqui o delírio assume outras formas. Economistas ao traçarem seus cenários para 2015 dão como certo o aumento da taxa de juros curta nos EUA e com isso uma apreciação do Dólar em escala planetária. No Brasil alguns analistas supõe que a combinação de Dilma mais fim do QE poderia levar a moeda norte-americana a R$ 2,80 ou além. Vejo nessas preposições algo de muito simplório, estes assumem que 1-) o PT vai ser o mesmo (o que não sabemos ainda), e 2-) que os EUA já estão (no mínimo) saudáveis.

A situação é dramática na administração monetária mundial e o grau de disfunção está atingindo patamares inimagináveis. A Europa vai fazer um QE pelo simples motivo que suas taxas de juros já estão na prática atravessando o limite zero. Os títulos de 10 anos da França e da Alemanha estão abaixo de 1% ao ano. No caso da poderosa Alemanha os títulos de 2 anos estão negativos (em termos nominais!) o que evidencia mais uma vez a disfunção completa da esfera financeira do Velho Continente. É como se os investidores pagassem um seguro para deixar sua liquidez protegida atrás das grades de ferro do Bundesbank (Banco Central Alemão). Os títulos Italianos, vejam só, já estão no menor patamar da história. O dinheiro como ponte entre o presente e o futuro rompeu e ninguém está disposto a reerguer.

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O BCE numa tentativa desesperada de forçar o dinheiro rumo a economia e desinchar o mercado financeiro que está com a preferência pela liquidez nas alturas (lembremos que ações são líquidas diariamente, já títulos não, a não ser no Brasil) jogou a taxa que remunera os depósitos compulsórios do continente para o campo negativo algo que por si só é dramático e sem precedentes! É como se o BCE punisse quem deixasse dinheiro parado, colocando assim a faca no pescoço dos bancos para este jogarem dinheiro na economia e não em títulos ou ações.

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O problema é que – e este é o delírio que mencionei em parte acima – nem as empresas (que estão com seus caixas cheios) nem os governos (que em alguns casos pagam juros reais negativos) estão dispostos a liderar os agentes rumo ao investimento. O resultado dessa situação é uma forte reação irracional, como, aliás, é típico de economias monetárias de produção de tempos em tempos.

Ultimo dia 25 de setembro a presidente do FMI Cristiane Lagarde pediu justamente isso à chanceler alemã Angela Merkel; que a Alemanha faça mais pela Europa, ou seja: lidere uma política fiscal expansionista gerando novos pontos de dinamismo econômico. Angela não irá fazer nada ainda por ora, afinal o “4º Reich” alemão pressupõe que se aumente a produtividade ainda mais nas regiões mais pobre da Zona do Euro. Há outro motivo também, em tese para Alemanha as coisas estão indo relativamente bem, seu saldo comercial continua positivo e o desemprego relativamente baixo.

Os europeus argumentam tentando trazer um pouco de racionalidade ao debate que há risco eminente de deflação no horizonte. De fato a inflação desacelera na Europa na esteira da preferência da liquidez elevada e da atividade doméstica ameaçando retroceder mais uma vez.

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No entanto a explicação via inflação parece ser o argumento nos EUA para subir os juros (como ficou expresso em algumas anotações de parte dos membros do FOMC). Algo parece profundamente fora da ordem, não?

Nos EUA, diga-se de passagem, o multiplicador bancário está no menor patamar da história evidenciando assim que o QE que injetou alguns trilhões de dólares na economia norte-americana e mundial ainda não foi capaz de reverter a preferência pela liquidez. Claro, o gráfico abaixo é irmão siamês ao balanço dos ativos do FED, mas o que me chama atenção é o recorde de baixa do multiplicador, isso evidência o estado ainda disfuncional da política monetária por lá.

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Mas qual seria então a razão de fundo de tamanho descontrole? Obviamente não é sem razão que estes processos se sucedem e a irracionalidade do mercado é apenas sintoma de algo subjacente. Em minha opinião o motivo que veremos por mais tempo os juros em patamares tão baixos, no Brasil inclusive deve cair, é uma reorientação de velhos acordos comerciais que hoje não fazem mais sentidos e que não há liderança que possa organizar num horizonte curto
de tempo.

A questão é relativamente simples no comércio mundial atual. No pós-segunda guerra mundial os EUA organizou a paz econômica da seguinte maneira: os EUA iram rodar déficits comerciais enquanto a Europa e o Japão iriam rodar superávits; a conta seria paga em Dólar e os EUA seriam o emissor da moeda mundial. O acordo se radicaliza em 1971 quando o presidente Nixon fecha a “Janela Dourada” e desvincula o Dólar do Ouro. Neste ponto a moeda torna-se fiduciária e estamos assim atrelados não a oferta de Ouro para ampliar a oferta de moeda, mas sim ao crescimento econômico norte-americano.

Os EUA vêm desde então forçado sua economia ladeira acima através de uma política monetária em muitos casos expansionistas, mas também alternando com contrações violentas como foi o caso do choque Volker feito menos de uma década depois de Nixon romper com Bretton Woods definitivamente.

O que vemos hoje é que os acordos até então estabelecidos e que garantiam a governabilidade global estão fazendo água.

No fundo o QE europeu é sim uma tentativa de enfraquecer o Euro para ganhar dinamismo externo uma vez que a única variável que pode ajudar de fato o Velho Continente, uma vez que o ajuste fiscal já fez uma “limpa” nos gastos sociais de muitos países reduzindo assim o salário em termos reais e aumentando na margem a produtividade.

Os gráficos abaixo mostram a inoperância da União Europeia no seu saldo externo desde que a União foi feita. Se de
um lado o resultado melhorou recentemente, justamente porque o Euro iria “quebrar” na esteira dos PIIGS e assim desvalorizou o Euro de maneira eficiente, na margem vemos certa deterioração. No caso do Japão (do qual eu peguei uma série propositadamente longa) a situação é absolutamente fora de controle.

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O problema central é que o mundo ocidental (contando aí o Japão) simplesmente não sabe o que fazer com a emergência da China nem em como organizar o comércio incorporando os emergentes. Os EUA não são grandes o suficiente para absorver todos os superávits locais. Entramos assim numa guerra monetária sem escalas e que não irá permitir os EUA a subirem os juros. Se o FED ameaçar de fato subir os juros curtos os capitais europeus e japoneses irão inundar os EUA forçando o PU (preço unitário)para cima e o yield (juros) para baixo apenas com o efeito de valorizar o Dólar no processo. Yellen sabe disso, por isso é cautelosa em anunciar qualquer coisa. Simples assim.

No Brasil o paradoxo se impõe de maneira trágica. Enquanto o mundo paga zero de juros estamos entregando taxas reais de 4,5% em contratos de um ano (e com liquidez diária, lembrem). O estado brasileiro está dando “saída” para capitais estacionados nas tesourarias de bancos ao redor do mundo. A taxa é tão grande que os gestores internacionais nem ligam para a eleição por aqui, seguem “comprando” Brasil ao valor corrente sem maiores preocupações, seja em títulos públicos, ações ou via IED.

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O mercado segue disfuncional e no Brasil alguns acreditam que o ideal seria retornar a heterodoxia mais radical como solução aos infortúnios econômicos. Não acredito que nem os mais radicais nos partidos de oposição sejam assim tão radicais, mas o consenso de mercado é sem dúvida fortemente destituído de fundamento. Aécio, Marina e Dilma têm uma pequena margem de manobra macroeconômica. Todos sabem disso.

A ponte com o futuro foi rompida e vivemos um impasse e o que deve sair disso é mais liquidez apenas no curto prazo. Quando se emite dinheiro é como se comprássemos tempo. O FED está comprando tempo para ver o que acontece e do jeito que está a economia mundial, e seus líderes, não devemos ver nada muito emocionante (a não ser algumas guerras como a que está prestes a estourar na Ucrânia por exemplo).

A hora é de reconstruir as bases do comércio mundial sob um novo prisma, mas o Velho Mundo não quer e não vai permitir. Não por acaso os BRICS ganharam relevância internacional e o Banco criado recentemente é sim algo de peso nas Relações Internacionais.

A ponte ruiu e ninguém quer descer lá embaixo para começar a fazer as colunas, está todo mundo olhando da beira do abismo…