crise
Texto por Pedro Paulo Silveira

A economia global vem confirmando os cenários mais pessimistas feitos no início do ano. Os países da Europa estão com suas economias estagnadas ou em recessão, o desemprego está aumentando e as perspectivas são inegavelmente ruins. Hoje o Bundesbank, banco central da Alemanha, soltou relatório confirmando que as condições da economia estão ruins, por conta da “demanda global mais morna e da falta de recuperação mais firme dos países da União Europeia”. O Japão anunciou que seu PIB despencou 1,6% anuais no terceiro trimestre (0,4% ante o segundo trimestre) depois de ter apresentado um derretimento de 7,3% anuais no segundo trimestre. Isso representa uma queda de mais de 2% no ano. Apesar de toda a retórica de seus dirigentes, os países avançados, exceto EUA e Reino Unido, têm falhado sistematicamente em colocar suas economias fora do risco de uma depressão. Eles têm insistido em um receituário de política econômica definitivamente tóxico para a recuperação: as políticas de austeridade.

Como soe acontecer, volto ao tema: as políticas de austeridade fiscal adotadas pelos países em desaceleração pioram suas chances de recuperação e não as melhoram, como querem fazer crer os formuladores de política mais conservadores. Vale a pena voltar ao tema porque ele é decisivo para traçar o cenário externo (com todas as suas consequências sobre a nossa economia1) e para entendermos como os possíveis passos do governo Dilma Roussef podem resultar, ou não, em mais um desastre para nossa economia.

O Japão está em uma crise de estagnação desde os anos 1990 e hoje é um dos casos mais populares na academia sobre economias problemáticas. Depois de uma mega bolha especulativa nos mercados acionário e imobiliário, o país afundou em uma recessão que fez evaporar o seu sistema bancário. A partir dessa crise, a taxa de crescimento do PIB japonês, que foi uma das mais dinâmicas do século XX,  despencou para uma média de 1,1% (1990-2007). Veja o gráfico com as taxas de crescimento japonesas:

jaspão crescimento

Depois da crise, a média de 1990-2014 caiu para pífios  0,7%. E Abe, o primeiro ministro japonês, tem sua cota de responsabilidade na manutenção desse cenário. Ao estipular o seu plano das “Três Flechas”, o governo japonês propôs misturar na mesma estratégia três políticas que se anulam ou, pior, acabam por ter um resultado inverso ao desejado. As três flechas: (1) reformas trabalhistas; (2) aumento dos impostos para reduzir a relação dívida/PIB e (3) expansão monetária.

Shinzo Abe apostou em agradar os mercados que estavam temerosos com o endividamento público do Japão, que chegou a cerca de 140% do PIB nesse ano. A ideia é a de que os mercados ficam temerosos com a solidez fiscal de um país se ele tem uma trajetória de endividamento crescente e, portanto, o governo deve tomar medidas para frear essa tendência. Caso contrário, o setor privado iria se tornar indisposto a financiar o governo e as taxas de juros sobem, fazendo cair, ainda mais, os investimentos. Ocorre, porém, que o endividamento japonês cresceu justamente porque a economia colapsou a partir de 2007 e, não fossem as intervenções fiscais, ela teria caído muito mais que os 2% que caiu. Assim, a ideia de ajustar o lado fiscal deveria passar por uma solução que não comprometesse a taxa de crescimento, já que os impostos dependem fundamentalmente dela. Aí Abe cometeu seu pecado original: aumentou os impostos sobre o consumo de 5% para 8%. Ele retirou da economia 3% do consumo das famílias e o consumo representa 60% do PIB! Se você levar em conta que cada US$ 1,00 que você retira do consumo é responsável por uma queda superior ao dólar retirado2, não é de se estranhar que uma redução de 3% nos gastos das famílias (por conta do aumento dos impostos) tenha obtido um resultado tão desastroso como a queda do PIB.

A expectativa dos formuladores japoneses era a de que os agentes iriam perceber o esforço fiscal (o esforço fiscal das famílias japonesas!) como uma boa notícia e iriam aumentar os investimentos. Mas aconteceu exatamente o contrário! Como já era de se esperar… A austeridade fiscal tem esses resultados: o aumento dos impostos e o corte das despesas do governo não induz ao investimento, induz à queda do PIB.

Curioso é que o presidente do Banco do Japão (BoJ), Harukiko Kuroda, havia aumentado a metas de expansão monetária em US$ 180 bilhões, algumas semanas atrás. E isso valeu muitos elogios ao governo japonês, que, segundo a imprensa especializada internacional, estava dando aulas de gerenciamento macroeconômico4. Por conta do aumento do estímulo monetário, as ações japonesas subiram feito foguetes; hoje experimentaram uma queda de quase 3%. Veja o gráfico do índice Nikkei:

Nikkei (diário)

nikkei

Esse é um caso clássico dos efeitos ultra tóxicos da política de austeridade fiscal.

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Na Europa, mesmo após os resultados decepcionantes do PIB do terceiro trimestre, anunciados na sexta,  o presidente do Bundesbank, Jens Weidmann, se mantém contra a utilização do BCE para dar liquidez às dívidas dos países membros. Essa política se resume à compra de títulos das dívidas dos países da Zona do Euro, para aumentar seus caixas e permitir a elevação dos gastos. Mas o argumento do presidente é claro:   “tais ações podem criar novos incentivos para (os governos) aumentarem suas dívidas, além de adicionar cansaço às reformas em diversos países”. Com o desemprego atingindo milhões de pessoas, com as economias derretendo e com a própria Alemanha se colocando de frente a um cenário de estagnação nesse ano, Weidmann preocupa-se com os incentivos à interrupção das reformas. Aliás, reformas que só aconteceram nos países mais pobres e que não resultaram em melhora das condições econômicas, ao contrário.

O leitor não pense que há alguém querendo ouvir ou ser convencido nesse debate: os defensores da austeridade fiscal têm seus princípios formulados há décadas e mesmo que os eventos refutem claramente seus resultados, eles não se importam. A ideia é espremer a sociedade até que o crescimento volte, espontaneamente, a qualquer momento. Mas o fato é que o crescimento realmente volta em algum momento. O que importa, no entanto, é que a taxa de sacrifício que se impõe à sociedade, para passar por esse período de “ajuste”, é injustificável. O defensores mais “xiitas” da austeridade não conseguiram demonstrar a eficiência de suas propostas e defendem-se na complexidade de seus modelos5. Mas o próprio FMI reconheceu, em seu último encontro, que a economia global está à beira do que Christine Lagarde chamou de “A Nova Mediocridade”: um baixo crescimento, com muito desemprego, piora da distribuição da renda e nenhuma perspectiva de melhora ( ver: http://pepasilveira.blogspot.com.br/2014/10/nuvens-no-ceu-da-economia-global.html ). O conselho do FMI é para que os países façam a “consolidação fiscal” (violentos pacotes de austeridade antes defendidos pelo próprio FMI) de forma mais lenta e demorada. Mais que isso: Lagarde sugeriu que os governos aumentem seus gastos em investimentos6, que os países procurem cooperação, já que as disputas comerciais e cambiais podem levar o comércio internacional a uma desaceleração mais grave.

Enfim, ao término do G-20, sem propostas concretas no sentido de coordenação para a recuperação, o quadro para o futuro fica mais frágil. Alguns dos principais líderes estão  mais frágeis politicamente em seus países (Obama, sobretudo!) e há um claro clima de maior divisão no grupo, sobretudo por conta da Rússia de Putin. (os países entraram em um jogo não cooperativo onde a soma é claramente menor que zero)

No início do ano sugeri que esse quadro (o atual) era previsível e que as chances de sua ocorrência eram maiores. E, de fato, o mundo encerrará 2014 com um crescimento menor do que o esperado pelo FMI e isso resulta da aplicação das políticas de austeridade. Salvaram-se EUA e Reino Unido que, mesmo com as restrições fiscais impostas pelos falcões, compensaram-nas pelo forte programa de expansão monetária. Tal como coloquei no início do ano, a partir dos intensos alertas feitos por economistas em diversos lugares do mundo, o otimismo que se abateu sobre o mercado e os governos no final do ano passado, se comprovou irracional.

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Finalizando, vale a pena mostrar o gráfico atualizado das cotações da Petrobrás em dólares. Ela continua se desvalorizando, fruto das enormes dúvidas quanto ao seu futuro e por conta da desvalorização da taxa de câmbio. quanto a essa última, o BC continua insistindo em tentar segurar o dólar, considerando sua desvalorização um problema. Mas, como confirma a história dos ajustes externos, o dólar não é o problema, mas a solução deles. Veja o gráfico:

Petrobrás (emUS$)

petro em us

  1. Desde que a economia se globalizou, por volta do século XVI, há inegáveis relações de dependência entre as políticas econômicas dos diversos países. Keynes as responsabilizou pelas grandes tragédias nacionais, posto que os desequilíbrios externos sempre foram nocivos e inevitáveis. Ele utilizou esse argumento para sugerir uma estrutura global de pagamentos mais cooperativa no pós segunda grande guerra. A Teoria Econômica, na verdade, convive com as relações de causa/efeito do comércio e dos fluxos financeiros desde os seus primórdios, em particular, desde os “metalistas”. Agora o FMI reconsiderou a discussão e a “relançou”, dando a impressão de que é “inédita” ! Consulte a página do FMI e tenha uma “aula” sobre as revolucionárias descobertas, em particular o artigo: “Understanding SpilloversBy Olivier BlanchardLuc Laeven and Esteban Vesperoni; The global crisis—which challenged paradigms about the functioning of financial markets and had significant consequences in other markets—and the sluggish recovery since 2009, are a reminder of the importance of understanding interconnections and risks in the global economy. The increasing trend in global trade, and even more significant, in cross-border financial activities, suggests that spillovers can take many different forms.” (http://blog-imfdirect.imf.org/2014/11/12/understanding-spillovers/ )
  2. Os dispêndios têm um efeito multiplicador sobre PIB: para cada dólar de aumento no consumo, no investimento ou nos gastos públicos, há um aumento superior a um dólar no PIB. O mesmo efeito multiplicador ocorre no sentido contrário, quando há contração dos gastos.
  3. http://www.bloomberg.com/news/2014-10-31/boj-unexpectedly-boosts-easing-amid-weak-price-gains.html.
  4. Já citei aqui, na semana passada, o artigo de Barro acerca da nulidade de se aumentar os gastos por meio de dívida, como forma de acelerar o PIB. Com efeito, todas as políticas de austeridade levadas a cabo nos anos 1980-2000 comprovaram ser de alto custo e baixa eficiência em termos do crescimento posterior. Ver, por exemplo, Krugman, P. “Peddling Prosperity: Economic Sense and Nonsense in na Age of Diminished Expectations”, N.Y.,  W.W. Norton & Company, 1995.
  5. Largarde foi uma incansável defensora  da austeridade como forma de estabilizar as economias após a crise das dívidas europeias. Agora defende a volta dos investimentos públicos, como forma de atenuar a crise de demanda, por meio de obras em infraestrutura.