zecarioca

O “Jeitinho brasileiro” e a Economia

Algumas áreas humanas são extremamente conectadas umas às outras: Economia e Direito, Filosofia e Sociologia, História e Sociologia, História e Economia, enfim… são inúmeros os exemplos. Por um lado há áreas que são indispensáveis a outras e algumas são complementares. Como iremos falar de Economia é importante relatar quais são as áreas externas que compõem a economia. No mínimo: Matemática, História, Sociologia, Filosofia, Direito. Apesar das áreas externas que compõem e fazem o arcabouço teórico econômico, a Economia ainda possuí uma outra área externa, muitas vezes esquecida e não estudada pelo alunos de graduação: A Antropologia.

Grosso modo, a Antropologia é o estudo ou ciência que tem como objeto o homem e a humanidade em sua totalidade, isso é, Antropologia estuda o ser humano em todas as suas relações, sejam elas religiosas, filosóficas, econômicas ou sociológicas. Muitos confundem Sociologia com Antropologia, sendo que apesar de inúmeras semelhanças, a última se destaca pelo método particular (Estudo de campo) além de tendências diferentes.

Grande parte dos economistas não estuda Antropologia e não faz ideia do que se trata, o que pode ser considerado um erro, pois Antropologia é um estudo do próprio homem e, não entender o homem e sua cultura pode ser problemático para previsões, análises e pesquisas econômicas de todo o tipo. Não entender a cultura econômica agrícola, relações senhoriais e nobres da Idade Média, por exemplo, é quase impossível entender as causas e efeitos econômicos desse período.

Outro ponto relevante é a microeconomia. Como entender a ótica do consumidor de uma determinada cultura se não entendermos como esse povo demanda? Imagine uma empresa que abra um comércio de carne bovina em uma localidade indiana, o que poderia acontecer?

A discussão sobre a importância da Antropologia é longa e não é esse o intuito desse post. O objetivo desse artigo é trabalhar com um elemento da Antropologia, estudado e pesquisado por Livia Barbosa, o famoso “Jeitinho Brasileiro”.

Jeitinho brasileiro é um elemento da cultura brasileira, onde o sujeito o utiliza para resolver possíveis conflitos de maneira especial, onde possui como características a infração de normas éticas, morais ou legais; a informalidade e estabelecimento de uma relação igualizante. O tema foi abordado inicialmente no começo dos anos 80, mas ainda sim o Brasil segue a cultura de resolver problemas por meio da “barganha”, do “jogo de cintura”, isso é, pelo jeitinho.

O que isso tem haver com a economia? Convido o leitor a refletir comigo. Alguns exemplos do que é o Jeitinho Brasileiro podem ser ilustrados das seguintes maneiras:

-Na impossibilidade de poder comprar um carro caro, um sujeito decide levar uma filha pequena para poder fazer um test-drive. Chegando na concessionária, o sujeito mostra que está com uma menina pequena e pede paro o atendente poder passear com a filha num test-drive. O sujeito bate o carro logo em seguida;

-Ricardo tem apenas 10 reais em seu bolso e decide ir fazer uma refeição de 12 reais na padaria, chegando lá, Ricardo com humildade e simplicidade pede a atendente que conceda o prato de 12 reais por 10 reais, a moça depois de muita argumentação concede.

-Joseli precisa pagar um boleto da faculdade no último dia de vencimento. Ao chegar no banco, Joseli se depara com uma fila imensa. Ao chegar na sua vez, o banco fecha. Joseli tenta convencer o caixa que é o último dia do pagamento e se não pagar ela perderá a oportunidade de estudar. Dessa maneira, o caixa resolve abrir uma exceção pra Joseli.

O aclamado “Jeitinho brasileiro” possui muitos exemplos e destes podem surgir muitas consequências variadas. Apesar de ser algo que influência pouco, em termos globais a macroeconomia, a forma e a maneira especial dos brasileiros resolverem problemas afligem a microeconomia em geral. A partir do momento em que consigo consumir um produto por um preço inferior ao mercado, ocorre o que Durkheim chama de “anomia”, ocorre uma injustiça perante aos demais.

Talvez estudar demasiadamente o “Jeitinho Brasileiro” não seja uma opção para o economista, mas ele deve ter a noção de que a cultura de um povo, pode e muitas vezes muda drasticamente a economia . No caso do Jeito brasileiro pode se tratar de uma pequena margem de erro em balanços contábeis e dados estatísticos, mas desconsiderar elementos culturais como esse, pode ser crucial na análise econômica.

F.Ogata- Graduado em economia pela PUC-SP, Licenciado em filosofia pela PUC-SP e estudante de Direito.

@parallaxisds