Filosofia
Post escrito pelo Filósofo, Economista e estudante de direito: Felipe de Mello Ogata

De tempos em tempos fugimos um pouco do nosso cotidiano caótico, e tentamos nos perguntar sobre sentidos da vida. Por que estamos aqui? Qual é a origem de tudo? O que é o homem? Perguntas como esta, entre outras, tem elementos essencialmente filosóficos. A filosofia inicia-se com perguntas desse esteriótipo, sobre a totalidade das coisas, buscando verdades e conhecimentos que expliquem elementos da vida humana.

Diferentemente de outros posts do parallaxis, hoje trago um questionamento estritamente filosófico que beira a história da filosofia e a própria natureza humana. O post tem como intuito entender os motivos, isso é, razões que levaram o homem a iniciar o pensamento filosófico na Grécia.

Por que o homem começou a filosofar?

É um consenso geral, entre estudiosos, que a Grécia foi o palco de origem da filosofia. Embora muitos discutem as influências do pensamento oriental, dificilmente se reconhece que a filosofia não se tenha iniciado na Grécia. Grande parte dos motivos parecem ser justificados por elementos histórico-culturais, isso é, a cultura grega tinha elementos que propiciaram o florescimento da filosofia grega.

Não se esgotam exemplos. Giovanni Reale em seu livro “História da filosofia” comenta que a Grécia possuía uma poesia que tangenciava a filosofia, religiões que influenciavam o pensamento grego e questões socioeconômicas favoráveis. Vernant também demonstra características essenciais da cultura grega no caminho para a filosofia, como o poder da mitologia e as poesias homéricas. W. Jaeger é outro estudioso que fala das poesias épicas na formação do pensamento grego. Enfim, existem inúmeros estudiosos que argumentam, afirmativamente, que a Grécia foi o local mais propício para a formação da filosofia.

Por que esses estudiosos falam tanto da poesia, como influência  da formação filosófica? Em primeiro lugar, a poesia tinha imensa importância na formação educacional dos gregos. Diferentemente de outros povos da época, a Grécia antiga continha poemas como a Ilíada, Odisseia e Teogonia que explicavam a origem do mundo e que eram ensinadas como caráter educacional. Isso não quer dizer que outros povos, como os babilônicos e os egípcios não tinham elementos poéticos de formação. O que acontece é que na Grécia a poesia tinha profunda influência educacional. Um fato relevante é que nos poemas homéricos as ações dos personagens são justificadas, isso é, motivadas. A trama contém explicações, motivos psicológicos dos personagens, o que futuramente poderia ter sido um elemento essencial filosófico (buscar razões nas ações).  W.Jaeger também demonstra o fato que nos poemas existia a tentativa de explicar a totalidade das coisas (elemento que a filosofia, primordialmente fazia), “A realiadade apresentada em sua totalidade: O pensamento filosófico a apresenta em forma racional, ao passo que a épica a apresenta em forma mítica”. A teogonia de Hesíodo ainda trás outro elemento interessante: A cosmologia do universo (Característica marcante nos primeiros filósofos “naturalistas”). É possível ainda explorar a ideia de “Justiça” nos poemas gregos. O próprio Hesíodo, em sua obra “As obras e os dias” carrega a ideia de “Justiça” como elemento de grande importância: “Dá ouvidos à justiça e esquece completamente a prepotência”( A justiça é um tema centrar na obra de Platão).

Outra ideia que os estudiosos marcam como relevante na formação do pensamento grego é a religião. A religião grega, em sua grande parte, era advinda dos poemas de Hesíodo e Homero, dos quais continham alguns elementos que podiam ter dado influência na filosofia (Acima mencionados). Porém, não podemos esquecer do Orfismo, religião que tinha alguns pontos interessantes. O Orfismo dizia, por exemplo, que no homem existia um principio divino que seria uma alma (demônio) que ficava com o corpo (Dualismo entre alma e corpo). A alma não preexiste no corpo e não morria com o corpo, o que faz com que a alma seja algo, em certa medida, separada do corpo. Era possível que a alma reencarnasse em outros corpos até que obtivesse uma espécie de perfeição, do qual poderia sair do ciclo de reencarnações. Vernant, Brehier e Reale comentam sobre o orfismo e colocam que era impossível entender Pitágoras sem entender o orfismo, pois o orfismo colocava os sujeitos numa espécie de forma de viver para purificar a alma. Reale ainda consta que Platão foi extremamente influenciado pelo Orfismo.*

Um último ponto, sob o ponto de vista histórico, que influenciou no surgimento da filosofia na Grécia foi o aspecto econômico e político. A Grécia, meados do século VII e VI a.c não possuía uma restrição política como outros territórios. Existia uma liberdade política que permitia o diálogo sobre diversos temas. O comércio na região das colônias gregas também permitia a possibilidade de trocas de informações e conhecimento, fazendo com que os gregos tivessem contato com diversas opiniões e experiências.

O leitor pode se perguntar quanto aos outros territórios, os não-gregos: Que influencia tiveram sobre a Grécia? A questão é que caímos em um território com pouca precisão. Os egípcios parecem ter compartilhado algumas questões matemáticas com os gregos, assim como os babilônios trocaram ferramentas de astronomia e geometria. Nada consta que a filosofia Hindu tenha tido algum contato com a filosofia grega em inicio. No período de Alexandre, o Grande, a cultura oriental teve alguma trilha no pensamento grego, mas devemos recordar que isso foi quando Aristóteles já tinha elaborado parte de sua obra. Vale lembrar que enquanto a filosofia grega inicia-se com questionamentos que eram racionais (Isso é, argumentos que buscavam razões, causas, lógicas em grande maioria) sobre a totalidade do universo, a filosofia oriental partia de argumentos místicos, religiosos. Em suma, ao que historiadores afirmam (Will Durant, Reale,Vernant), a filosofia oriental não teve uma influencia marcante na formação da filosofia grega.

Falar que a filosofia na Grécia tenha se iniciado, somente,  por esses temas culturais (política, religião, poesia) é esquecer das características imanentes do homem. Não podemos dizer que o pensamento de Sócrates, Platão, Aristóteles tenham sido feitos apenas por elementos histórico-culturais. Isso seria extremamente radical e desqualificaria o pensamento grego. O que se quer demonstrar com os elementos acima é que alguns elementos históricos-culturais  influenciaram o pensamento grego (isso não quer dizer que devemos ler os gregos sempre tentando constatar tais elementos, pelo contrário, leituras imanentes são necessárias para os filósofos. O objetivo é apenas mostrar hipóteses históricas sobre o surgimento da filosofia na Grécia e não em outro lugar)

Agora, sob o ponto de vista estritamente filosófico, porque o homem começara a filosofar?

Platão e Aristóteles parecem tentar responder essa questão. Ambos afirmam a necessidade do homem de se elevar buscando conhecimento, procurado a verdade. Uma das frases mais interessantes de Aristóteles, sobre o surgimento da filosofia foi: “  “Os homens começam e sempre começaram a filosofar movidos pela admiração.”  Alguns pontos, antes de uma discussão, devem ser destacados:  o termo “admiração” foi muitas vezes traduzido como “assombro”, “maravilhamento” ou “espanto”. A palavra “θαυμασμό” (admiração) pode ter um sentido diferente de “έκπληξη” (espanto) em grego, o que pode gerar talvez uma confusão de interpretação. Admirar-se pode ser entendido, no português como sinônimo de contemplar-se, olhar algo como novo e pensar sobre aquilo (Daí a ideia de que toda criança é uma filosofa). Espantar-se, em alguns dicionários, seria como colocar algo em surpresa, ao mesmo tempo admirar-se. Ambos os casos, a filosofia inicia-se porque o homem aspira ao conhecimento e a verdade e, começa-se a filosofar no momento em que o ser humano admira, contempla ou fica surpreso sobre um tema.

Filosofia tem no pano de fundo a conotação de questionamento sobre as coisas, admiração acompanhada de elemento questionador. Como uma criança que caminha em algum local novo e pergunta o ser das coisas ( O que é isso? Por que isso é assim?). O homem tem essa característica e faz parte dele. Jaspers diz em um dos seus livros que o homem ao filosofar apenas está fazendo aquilo que deveria fazer, aquilo que ele realmente é e, ao não filosofar, ele foge de si mesmo.

Talvez não precisamos retomar Platão e Aristóteles para verificar que o elemento de gênese filosófica seja o questionamento, este por sua vez que está em quase todos os filósofos. Seja Sócrates, seja Descartes, seja Nietzsche. Todos questionaram-se sobre algo. Mas por que exatamente questionaram? pela admiração? pelo espanto? por questões culturais? por fraqueza? Ser pontual e preciso nesse ponto é ir além do que se pode. Limito apenas indagar, assim como todos fizeram e continuam fazendo… e nesse ponto, continuo fazendo aquilo que identifico e que faz parte de mim: Filosofia.

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