Etica9
Texto escrito por Ronaldo Campos -  Bacharel em Administração e em Filosofia pela Universidade de São Paulo, e em Contabilidade pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Tem especialização em Administração pela FIA/USP. É consultor do Espaço Ética. E-mail: ronaldo@espacoetica.com.br

“O maior problema quando se propõe pensar o papel da ética nas organizações é o preconceito que surge quando julgamos os valores de uma educação ética comunitária, seguida pela maioria da população, com os valores corporativos.

Por “ética comunitária” entendemos o conjunto de valores morais que cada indivíduo carrega de seu grupo de origem, por exemplo, compartilhar uma linha de telefone fixo ou o uso do carro pelos vizinhos. Nossa cultura dá muita importância para a camaradagem e a generosidade, reflexos de uma longa história de injustiça social. De outro lado, os valores corporativos foram pensados para atender aos lucros e à sustentabilidade do negócio dentro de um espírito anglo-saxão.

Exemplos de conflitos entre essas duas visões de mundo são muito comuns. Um caso verídico é o do supervisor de uma companhia de energia que recebe um automóvel da empresa para acompanhar os serviços de manutenção da rede elétrica. Por conta do excesso de trabalho e do trânsito, esse exemplar funcionário ultrapassa suas oito horas diárias de serviço sem reclamar. Certo dia, esse supervisor relata aos colegas que no fim de semana socorreu sua vizinha para levá-la ao hospital de madrugada, com o carro da empresa. Inesperadamente, o funcionário foi advertido pelo seu gerente por utilizar o patrimônio da empresa fora do expediente em benefício próprio.

Neste exemplo ocorre um sério conflito sobre a interpretação do valor confiança. Para o gerente, o colaborador deixou de ser digno de confiança quando utilizou o carro em atividades externas ao cumprimento do trabalho. Já o supervisor perdeu sua confiança na empresa, pois considera a advertência injusta. Um mesmo valor no código de ética, porém com duas interpretações diferentes. Do ponto de vista do gestor, houve um desvio de conduta com o uso do patrimônio. Pelo ótica do funcionário, a sua dedicação ao trabalho não foi reconhecida, sendo que o uso do automóvel implicaria um acordo tácito de mútuo benefício entre a empresa e o colaborador. Qual é a interpretação correta deste valor?

A definição de confiança, que no Ocidente remonta ao filósofo São Tomás de Aquino, a classifica como um sentimento de certeza sobre coisas que não podemos verificar ou demonstrar (AQUINO, 2010). No caso da empresa, a confiança pressupõe que o supervisor fará um bom uso da ferramenta de trabalho que lhe foi concedida – sem que haja necessidade de devolver o automóvel no final do expediente para verificar o mau uso do veículo. Porém, o que define esse “bom uso”? Socorrer pessoas em perigo de morte é um mau uso? Será que há um entendimento universal sobre a aplicação desse valor?

Não existe uma interpretação universal do que podemos entender por confiança, nem de situações que podem ou não ser confiáveis. Cada grupo social ou empresa entenderá este valor de uma forma particular, atribuirá um sentido dentro dos problemas cotidianos. A sociologia provou que cada cultura tem sua própria noção de certo e errado, e que toda normatização da ética é fruto de um jogo de interesses e conveniências (DURKHEIM, 1969; WEBER, 2004). Não há um conceito universal sobre valores como confiança, transparência, integridade ou mesmo lucro. Logo, podemos concluir que a simples citação de valores em um banner ou código de ética não garante um comum entendimento sobre seus significados e aplicações por parte de todos os envolvidos (acionistas, diretores, colaboradores, fornecedores ou clientes).

Neste instante o leitor deve estar se perguntando: é possível tratar de ética nas organizações se não existe um entendimento universal sobre os valores éticos? Há mais de 2 mil anos a filosofia ocidental nos ajuda a responder a esta questão. Constatado que há várias concepções possíveis sobre o que é ético, um grupo social deve buscar um consenso sobre o significado de cada valor ou virtude. Perceba, caro leitor, que não estou usando o termo “alinhamento”, pois isso pressupõe uma imposição arbitrária do discurso moral da organização sobre os outros discursos que cada grupo social possui.

Os tomadores de decisão certamente se sentem incomodados com esta posição, pois acreditam que podem ditar seus valores com canetadas e demissões. Muitos se valem da autoridade e do medo para fazer valer seu ponto de vista. Durante séculos essa estratégia funcionou, porém fica cada vez mais nítido que as novas gerações não compactuam mais com essas imposições. A nova geração da web 2.0 não gosta só de ler ou assistir a uma notícia, ela também quer comentar, criticar e participar. Hoje quase tudo é interativo. Então, por que somente a sua percepção sobre ética no trabalho deve prevalecer?

Nesta nova sociedade de consumo, em que não há mais sujeitos passivos, uma consultoria ética passa a ter como objetivo entender os diferentes discursos de cada um dos integrantes da empresa sobre o que pensam ser “certo“ ou “errado“ no ambiente de trabalho. Ela deve expor o que os diversos grupos entendem sobre os valores praticados pela empresa, e assim propor uma reformulação do código de ética baseado em uma discussão coletiva sobre os valores que todos acham justo seguir.

É importante que uma consultoria não se preocupe somente com os aspectos normativos do código de ética, mas que ofereça às empresas um trabalho de educação continuada para que esses valores possam ser entendidos e compartilhados por todos os colaboradores, introduzindo esse tema na cultura organizacional. Esse trabalho tem se tornado cada vez mais comum, porém é necessário ter especialistas competentes e a boa vontade da direção para que possa dar certo.”

 


“Para refletir: De que adianta hoje ter a bola e as regras se não há jogadores dispostos a vestir a camisa do seu time?

Para alertar: Se você não pensou com seus colegas sobre o que eu escrevi, não adianta ligar para mim reclamando que seus funcionários não param na empresa. Sempre haverá outro clube oferecendo condições melhores para os seus jogadores.”


 

Referências bibliográficas

AQUINO, Tomás de. Comentario a la ética a Nicómaco de Aristóteles. Madri: Eunsa, 2010.

DURKHEIM, Émile. Leçons de sociologie. Physique des mœurs et du droit. Paris: PUF, 1969.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

[1] Bacharel em Administração e em Filosofia pela Universidade de São Paulo, e em Contabilidade pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Tem especialização em Administração pela FIA/USP. É consultor do Espaço Ética. E-mail: ronaldo@espacoetica.com.br