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Post de Diego Machado, Sócio e Diretor de Infraestrutura e Logística da Parallaxis.

Artigo da revista “Implementos Rodoviários” Anuário ANFIR | 2015 (link)

O segundo governo da presidente Dilma surpreendeu a todos com a adoção de políticas econômicas antagônicas ao discurso de reeleição e às políticas praticadas no primeiro mandato. Dentre as mudanças na condução da economia deste novo mandato, muito tem sido discutido acerca da necessidade da implementação do chamado “ajuste fiscal” da economia brasileira, levado a diante pela nova equipe econômica do governo.

A necessidade do ajuste na política fiscal se fez devido a deterioração das contas públicas do país, expresso principalmente pelo aumento da dívida bruta a níveis superiores aos pares internacionais. Contudo, a meta do governo é de que esta deve se estabilizar e começar a recuara partir de 2016. Dentre as medidas adotadas pelo governo, pretende-se alcançar um superávit primário de 1,2% do PIB ainda em 2015 e 2,0% em 2016.

Para lograr tais metas fiscais, a princípio, o governo não visa criar novos tributos e sim remodelar a arrecadação através do reajuste de alíquotas dos impostos já existentes e apertar os cintos das despesas discricionárias do governo.

Com relação ao plano do governo em conter o avanço sistemático da inflação, juntamente com a maior austeridade fiscal, tem-se executado uma política monetária contracionista, impactando o poder de compra da população através do aumento da taxa básica de juros e dos reajustes dos preços administrados, principalmente combustível e energia elétrica, que outrora estavam represados e fazem parte importante do ajuste dos preços relativos em curso. Os efeitos desse aperto já se mostram visíveis, principalmente, na diminuição dos investimentos do governo e nos desembolsos através dos bancos públicos, principalmente o BNDES.

Apesar de todos esses apontamentos, pouco se têm discutido os efeitos que tais medidas de austeridade causarão na economia.

Tais medidas adotadas criam um cenário de instabilidade econômica que já se reflete nos indicadores de confiança do empresariado em níveis tão baixos quanto a crise de 2008 e que, por conseguinte, propaga um ambiente nebuloso para a realização de investimentos por parte dos agentes privados.

Ao analisar especificamente o setor de implementos rodoviários alguns fatores estruturais têm criado barreiras ainda maiores e, por tanto, afetado a dinâmica desse mercado. Dentre os pontos de maior reverberação para o setor, esta a pauta da alteração das condições da linha de financiamento estratégica (lê-se PSI/FINAME).

O PSI/FINAME tem elevada importância para o crescimento e a sustentação do setor de implementos rodoviários, dado que responde por até 80% das vendas totais. Essa elevada dependência se dá por conta das taxas e condições subsidiadas pelo governo que as tornam mais atrativas quando se comparada aos financiamentos através de agentes privados do mercado financeiro. Tamanha dependência associada à política econômica adotada pelo governo faz com que qualquer alteração na sua estrutura traga riscos eminentes e expectativas negativas para a cadeia produtiva do setor.

Significa dizer que até mesmo o prazo de divulgação dessas condições afeta a decisão de escolha dos empresários, dado que quanto mais tarde, menos tempo de reação o mercado tem para se organizar e, caso necessário, buscar novas alternativas. No caso recente, a publicação das condições do financiamento (PSI/FINAME) foi realizada na última quinzena de dezembro de 2014, e com conteúdo nada otimista, dado que o governo foi destemido e através desta nova composição botaram em cheque as expectativas de crescimento do setor de implementos rodoviários para 2015. As principais alterações consistem em: i) aumento dos juros de 6% para 10%; ii) redução da parte financiável de 90% para 50% (grandes empresas) e de 100% para 70% (pequenas e médias empresas); e iii) retração no prazo de financiamento de 120 meses para 72 meses.

Essas alterações causaram turbulência e inquietação para a indústria e para os empresários que pensavam na hipótese de utilizar o PSI/FINAME para renovar ou ampliar sua frota. Dessa forma a perspectiva para o setor, em 2015, aponta com grande força para a retração, mesmo 2014 sendo um ano de “base fraca”, visto as vendas retraíram 10,22% em relação a 2013.

Os resultados na dinâmica do setor já podem ser sentidos. Segundo dados da Pesquisa Industrial Mensal (PIM-BGE), a indústria geral e de transformação apresentaram retração de, respectivamente, 7,1% e 9,3% no acumulado no ano até fevereiro de 2015 contra o mesmo período de 2014. O resultado do grupo “Fabricação de Veículos Automotores, Reboques e Carrocerias” está ainda pior, com retração de 24,8% no mesmo período (o grupo citado foi utilizado como aproximação da atividade industrial do setor de implementos rodoviários por contemplar as categorias pertencentes ao CNAE 2.0), impactando no aumento da ociosidade do parque produtivo do setor.

Quando se analisa os dados de Emprego (CAGED-MTE), também se percebe retração no número de empregados. A indústria geral anotou queda de 2,8%, representando o fechamento de 253.057 postos de trabalho, tendo como base o estoque de empregados em fevereiro de 2015 contra o mesmo período do ano imediatamente anterior. Se avaliarmos o segmento de Cabines, Carrocerias e Reboques (utilizando-o como aproximação do setor de implementos rodoviários) a retração foi de 6.393, queda de 9,6% na mesma base de comparação.

Segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Implementos Rodoviários (ANFIR) o número de emplacamentos de implementos rodoviários, do segmento pesado (reboques e semirreboques), apresentou retração de 50,18% no primeiro trimestre de 2015 quando comparado com o mesmo trimestre do ano anterior, totalizando apenas 6.950 unidades emplacadas. No mesmo período, o segmento leve (carroceria sobre chassi) apresentou queda foi de 28,87%, totalizando 16.068 emplacamentos. No total geral, contemplando as duas categorias citadas anteriormente, o número de emplacamentos recrudesceu 37,0%, com o total de 23.018 unidades.

É nítida a resposta negativa do setor de implementos rodoviários à conjuntura econômica em desaceleração e às medidas adotadas pelo governo com forma de “arrumar as contas do governo”. Podemos fazer uma relação entre as variáveis de referência e cada impacto na dinâmica do setor de implementos rodoviários:

  • Preços Administrados
    • – Alta do Combustível – Empresário busca por maior produtividade e eficiência dos veículos de carga ao invés de adquirir uma nova unidade, impactando na retração das encomendas;
    • – Alta da Energia Elétrica – Aumento dos custos da matriz energética para a fabricação dos implementos rodoviários. Ferramentas que consomem energia e a iluminação da fábrica tiveram significativo aumento com oreajuste;
  • Aumento do IPI para automóveis: Desestímulo a compra de veículos pelo encarecimento do bem. Por ser um imposto comprovadamente passível de reajuste para baixo e/ou isenção, o mercado deve contrair a demanda até tal evento ocorrer;
  • Aumento da Taxa de Juros: A alteração da TJLP (Taxa de Juros Longo Prazo) reverberou nas principais taxas de financiamento do setor, encarecendo e inibindo a aquisição de tais linhas que são de suma importância para as vendas do setor de implementos rodoviários;
  • Aumento da Tributação sobre as folhas de pagamentos: Setor possui baixo nível de automação e mecanização, ou seja, altamente dependente de mão de obra. Os ajustes estão chegando ao chão das fábricas e tirando competitividade da indústria.

 

Contudo, é sensato analisar que apesar do cenário econômico continuar incerto, o ajuste fiscal tem impactos que irão melhorar o horizonte no longo prazo. Porém muitos industriais e empresários entendem que o governo também necessita aumentar sua “cota de sacrifício”, dado que algumas das medidas anunciadas continuarão a impactar ainda mais a crise na indústria brasileira.

Esse cenário de queda na indústria de implementos rodoviários deve se manter até que haja revisão e alteração parcial ou total dos ajustes que o governo adotou até então. Dessa forma é necessário que a indústria tenha estratégias de médio e longo prazo para que consiga contornar, ou pelo menos estabilizar, as perdas no curto prazo. Para isso é importante que haja planejamento e planos de contingência, bem como um emparelhamento entre empresários, entidades de classe e governo de forma a pensarem em soluções para garantir a manutenção saudável das atividades e fazer o setor “soltar o freio de mão” e “sair da inércia”.