LivreArbitrio
F.Ogata Larsen- Filósofo, economista, estudante de direito.

Livre-Arbítrio: um problema não solucionado na filosofia?

Filosofia é um campo de conhecimento vasto, primordial para várias áreas. Não só um campo de conhecimento, como também um modo de vida, nos termos “Filosofia como modo de vida”, ou então filosofia como maneira de agir, pensar, dialogar, questionar, estudar e por aí vai. Apesar das maneiras e interpretações sobre o conceito de filosofia, ou por onde ela se estende, a filosofia tem questões em comum, não só na definição como problemas em comum. Um dos problemas mais emblemáticos da filosofia é a questão do “livre-arbítrio”. 
 
Antes de mais nada, o que se entende por “livre-arbítrio”? Resumidamente, livre-arbítrio é a a liberdade de escolha que uma pessoa possui. Segue-se que se um homem quer tomar um copo de cerveja, em determinado horário e local, ele tem a capacidade de escolher se irá ou não irá. O mesmo ocorre se o leitor deseja continuar com meu “mini-ensaio” ou não. Outro exemplo seria se uma mulher deseja ou não ter um relacionamento com certo homem. Tudo isso trata-se ,resumidamente, da questão do livre-arbítrio.
 
A questão já fora trabalhada por inúmeros filósofos ao longo da história, alguns defendem a possibilidade do livre-arbítrio, outros defendem a impossibilidade. Os que defendem a ideia da liberdade de escolha, utilizam vários argumentos, como por exemplo: somos responsáveis pelo que fazemos, ou então que o universo não é determinista, ou então a ideia de que não podemos prever o que iremos fazer,  ou a ideia do “libertismo” (Algumas das nossas ações são determinadas, outras não), entre outras. Por outro lado, os que não concordam com o livre-arbítrio possuem argumentos como: Genética (Nossos genes determinam quem somos e como pensamos); a ideia de que sempre haverá uma causa lógica sobre nossas ações e, nesse caso tudo estará determinado pelas causas; A ideia de que a história nos determina ou então forças como desejos, necessidades, vontades determinam nossas ações. 
 
Seja lá qual é a resposta, o problema é amplo e inúmeros argumentos surgem, ora de um lado, ora de outro. Mas cabe aqui uma reflexão, quais seriam as consequências de cada argumento? 
 
Se formos pelo caminho da  extrema impossibilidade do livre-arbítrio, o ser humano seria responsável por suas ações? Se há um crime hediondo, quem seria o responsável? 
Suponha que um homem matou sua esposa. Na hipótese de um homem não poder escolher entre matar ou não, suas ações seriam determinadas por questões fora do contexto, como por exemplo: a história desse homem, seus amigos, sua genética, a história com sua mulher. Se não há livre-arbítrio não há crime doloso, ou seja, se um sujeito não pode escolher suas ações, ele não pode ser culpado por suas ações. Então, a culpa recaí em quem? Estado, pais, amigos, genética, localidade? 
 
Se formos pelo caminho do livre-arbítrio, o mesmo homem que matou sua mulher, seria responsável por suas ações. Nesse caso as causas seriam internas, a culpa seria apenas dele, pela sua escolha. Deduz-se daí que o livre-arbítrio foi um dos argumentos essenciais na discussão da origem do mal (principalmente na filosofia medieval).
 
Seria errôneo da minha parte presumir que aqueles defendem, um lado ou outro, sejam tão radicais na questão do livre-arbítrio, embora existam radicais. A ciência* nos mostra, que em muitos aspectos somos determinados por genética, história individual, etc. Mas ao mesmo tempo possuímos responsabilidade pra escolher o que fazer, o que nos dá responsabilidade para alguns atos. A questão é: para quais atos somos responsáveis? até que ponto somos determinados por questões exteriores? e será que não possuímos a faculdade de escolher um ato ou outro, ou seja, se não podemos escolher totalmente, até que ponto podemos ser éticos ou morais?
 
(twitter: @parallaxisds)
*Neurociência – ABI-RACHED, J.; ROSE, N. The birth of the neuromolecular gaze. History of the human sciences, v.23, n.1, p.11-36. 2010.  
ROSE, S. What is wrong with reductionist explanations of behaviour? In: BOCK, G. R.;GOODE, J. A. (Org.). The limits of reductionism in biology. New York: John Willey & Sons, 1998. p.176-92.

SILVA, Pablo Rodrigo Alflen da. Culpabilidade e livre-arbítrio novamente em questão. Os influxos da neurociência sobre o Direito Penal. Jus Navigandi, Teresina, ano 14, n. 2193, 3 jul. 2009.

http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/o-livre-arbitrio-nao-existe-dizem-neurocientistas