Auschwitz-Birkenau

 

*Por André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos e amigo da Parallaxis Economics & Data Science

Nessa semana lembramos uma das piores atrocidades já cometidas pela a humanidade: há 70 anos o campo de concentração nazista de Auschwitz-Birkenau era desativado depois de matar de maneira industrial nada menos que 1,3 milhão de pessoas. Estive em Neuengamme, um campo de concentração perto de Hamburgo, e não me esqueço do lugar. Apesar da pouca idade pude sentir vividamente que o “Diabo” andou na terra naqueles anos e que o “Mal” de alguma forma existe.

Registro aqui meu profundo pesar aos que sofreram diretamente com os horrores da “Solução Final” e seus familiares que hoje são maioria. Aos meus amigos judeus minhas profundas condolências.

O Nazismo é um fenômeno ocidental que marcou profundamente nossa história e se torna impossível pensar o mundo sem colocar em perspectiva o que seres humanos foram capazes de fazer em nome desta utopia. O Nazismo será para sempre um lembrete incômodo do que somos capazes.

Não pretendo me aprofundar no tema num texto como este, mas não pude evitar entrar no assunto depois que o partido comunista grego e seu novo primeiro ministro alegaram que deveriam ser perdoados de parte da dívida uma vez que a Alemanha Nazista também o foi no pós segunda-guerra.

Feridas abertas sem dúvidas.

Quando li esse argumento lembrei automaticamente de uma palestra que o sociólogo de esquerda Chico de Oliveira deu para os alunos da PUC/SP lá se vão mais de dez anos. Chico nos alertou: o comunismo e o nazismo são faces da mesma moeda, ambas foram utopias da razão.

Sábias palavras. De fato depois de ouvir isso consegui finalmente entender a diferença entre Marx e os marxistas/comunistas e entender também porque o povo alemão, que admiro muito, entrou sem maiores resistências.

Muitos foram os pensadores que se debruçaram sobre o tema do nazismo e do comunismo e eu não ouso fazer nenhum comentário sobre o tema citando Hannah Ardent, mas tenho controle sobre um pensador que guiou sua trajetória intelectual tendo como norte responder ao nazismo e ao comunismo e o mais importante; fez isso em vida travando uma luta cotidiana contra todos em nome da paz tanto faz se ingleses, norte-americanos, alemães ou russos. Me refiro a Keynes.

Keynes foi um homem de visão e, principalmente, princípios. Ele fez parte da delegação inglesa que redigiu os termos da rendição da Alemanha na primeira-guerra mundial e vendo que a Inglaterra exigia mais que o razoável do povo alemão não teve pudores de abandonar a delegação em pleno Palácio de Versalhes largando todos atônitos no Salão de Espelhos.

Foi acusado de apoiador dos alemães por seus próprios compatriotas que não perceberam o trivial: exigir da Alemanha que pagasse aquela dívida era pedir que nunca mais surgisse ali um país condenando assim os alemães à sobrevivência mais insignificante.

Keynes largou seus colegas ingleses em Paris e voltou a Londres para escrever seu primeiro grande livro “As Consequências Econômicas da Paz”.

O surgimento do Partido Nacional Socialista de Hitler era um desdobramento lógico do que um povo sem futuro pode fazer. Do ponto de vista estritamente econômico o problema era o desemprego que assolava a Europa e que humilhou o povo alemão por anos até o surgimento do Nazismo e sua reconstrução da grandeza Alemã. Um Reich de Mil Anos prometia Goebels.

Keynes viu com um misto de fascínio e medo o que acontecia na Europa Continental. Tanto o fascismo alemão e italiano, bem como o comunismo soviético, se mostraram muito mais “eficientes” em erradicar ou diminuir o desemprego. As nações democráticas dos dois lados do Atlântico derrapavam em conceitos econômicos frágeis que criaram a perpetuação do desemprego e soluções inadequadas.

Keynes ironizou os economistas da sua época dizendo que “se duas retas paralelas se encontram muito mais na realidade do que se pode supor a matemática euclidiana, seria necessário então criar uma matemática não-euclidiana”. O que ele queria dizer era que os modelos criados pelos economistas de então não descreviam a realidade e de fato hipóteses como salários flexíveis era uma ilusão patética. Os economistas diziam que se alguém é desempregado é porque no fundo não quer ganhar menos. Uma mistura de imbecilidade e certo sadismo típico de raciocínios morais (é preciso se sacrificar para se ter o que quer, ou a fábula do Grilo e da Formiga). Isso soava verdadeiro como soava verdadeiro que a terra era plana, afinal ninguém poderia ficar de cabeça para baixo.

Este tipo de estupidez persiste entre nós até hoje de formas diferentes e mais sofisticadas, mas nem por isso menos estúpidas.

Keynes ao estudar estes regimes percebeu que em ambos os casos eles possuíam algo que sociedades democráticas e de mercado dificilmente teriam. O autoritarismo político e o poder do estado estabilizavam o futuro. Os Alemães iriam criar o Reich de Mil anos e para tanto o governo alemão iniciou um ambicioso programa de investimentos. Os comunistas estavam construindo o futuro e Moscow determinou que todo o russo teria uma lâmpada em casa.

Os Estados se engajavam na criação do futuro.

Keynes percebeu que a ação do estado totalitário planificava o futuro de tal forma que aumentava a demanda agregada e assim deixava elevada a taxa de investimento.

Muitos acusam Keynes de ser um monetarista frouxo, que a taxa de juros baixa é o grande remédio para todos os males, mas não é exatamente isso que Keynes disse. O que é necessário é que a taxa de juros seja compatível com a renda esperada, e a renda esperada de um dado investimento é determinada pela demanda esperada no futuro. Juros baixos não adianta nada se a economia não anda e prova disso nos é estampada na cara com o surrealismo monetário em que nos metemos onde vemos como que anestesiados juros suíços para dez anos pagando retornos negativos, em -0,08% para ser mais exato.

Keynes percebeu desde muito cedo que tanto Nazistas quanto Comunistas eram pessoas no fundo racionais, não havia uma loucura no sentido vulgar entre eles. Não por acaso um oficial nazista pode dizer com natural tranquilidade em Nuremberg que “apenas seguia ordens”. O projeto nazista e comunista é racional.

Como então vencer a racionalidade fascista e restabelecer a liberdade como centro no debate econômico?

Para isso Keynes teve que brigar primeiro com seus próprios pares e reconstruir a economia para extirpar erros teóricos infantis como a ideia de equilíbrio geral e de que a moeda é neutra.

Não vou me aprofundar aqui nesses tópicos, mas para Keynes o mais importante é perceber que a economia não é de trocas reais, mas sim de trocas monetárias. O dinheiro joga um papel crucial e ignorar isso é criar uma economia utópica sem sentido prático algum.

Para Keynes a racionalidade era o horror, era o Diabo na terra por assim dizer. A racionalidade assume que tratemos como homogêneos parâmetros que não são e que transforme diferentes em iguais. Esta força simplificadora da racionalidade é o verdadeiro mal que lutou a vida inteira e o Nazismo e o Comunismo mostram exatamente isso, que a diferença não era aceita. Para a racionalidade funcionar na economia ela precisa necessariamente de uma terra plana.

Por isso Keynes usa a palavra “comunidade” em seus textos, e tenho certeza que teria ojeriza de simplificações do tipo “agente representativo”. Para Keynes o futuro era uma criação da inteligência humana, não da racionalidade humana.

A inteligência consegue ponderar coisas que a racionalidade não pode por definição, a racionalidade sabe que não tem controle, ela espera que não seja assim. Para a racionalidade não há espaço para a dúvida: o futuro tem que ser uma monótona série de eventos e quando não é assim reage violentamente contra o “erro” da série.

Keynes queria atacar o nazismo e o comunismo em sua raiz, ele queria liberar a mente humana para ser inteligente e não racional e para sermos inteligentes temos que aceitar a liberdade e os riscos que vem com esta.

O uso inteligente de políticas fiscais e monetárias pode criar um nível aceitável de investimento e de emprego desde que seja feito com inteligência, condicionar essas políticas a racionalidade é “entregar numa bandeja de prata” a chave para o futuro para o “inimigo”.

Por isso o keynesianismo se mantém atual e o horror de Auschwitz é um lembrete incôdo do que a racionalidade nos pode fazer.

A modelagem das expectativas racionais nos levou a beira do abismo em 2008. A economia precisa se livrar dos velhos inimigos mais uma vez. A liberdade é o que define o que é humano e abrir mão disso em nome de uma suposta racionalidade não é muito inteligente.