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Uma coisa aprendemos ao virar as páginas do saudoso economista barbudo de Trier, há sempre uma necessidade de renovação das forças produtivas para que os mercados voltem a experimentar taxas de lucratividade consistentes que, com o tempo foram esvaziados pela própria lógica de acumulação. Para que isso ocorra é necessário transformações no âmbito técnico, econômico, político e cultural.

Para entender, a partir desse paradigma, as transformações em curso nos dias atuais e toda essa atmosfera de inovação que nos deparamos, dia após dia, precisamos voltar alguns anos e destrinchar todo o processo de evolução das novas formas de produzir valor.

As transformações na economia e na sociedade como um todo, em meados da segunda metade do século XX, são mais do que evidentes, cabe a nós buscar quais os impactos dessa mudança, para assim, compreender as novas formas de produzir e consumir instituídas naquilo que chamaremos de pós-modernidade. São inúmeros os sinais de modificações radicais em processos de trabalho, consumo, institucionais e geopolíticos.

Os “famosos anos dourados” do pós-guerra a consolidação do paradigma macroeconômico keynesiano, que teve êxito na implantação de políticas de sustentação da demanda efetiva, e com sucesso conteve, por um bom tempo, as flutuações cíclicas dos mercados, gerando crescimento com pleno emprego, salários reais com elevação acima da inflação e controle inflacionário. E pelo lado microeconômico, consolidou-se o paradigma industrial de produção e consumo em massa, baseado na produção de produtos padronizados. O paradigma taylorista-fordista se pautou na produção fabril de grande escala.

O método que Taylor recomendou estabelecia que as tarefas devessem ser divididas em operações simples rotineiras e extremamente esmiuçadas pela gerência. Para Taylor, havia uma necessidade de uma clara divisão entre as tarefas intelectuais (administradores) e manuais (produção). Foi pautado nesse modelo que Henry Ford introduziu a linha de montagem nos processos de produção.

Com isso, a união entre produção em massa e ganhos de escala crescente, permitiu a queda no preço dos bens. Esses ganhos de produtividade aumentaram a taxa de lucro e a necessidade de escoar os enormes estoques criados. Além de produzir a necessidade de uma massa consumidora. Os ganhos de produtividade foram repassados para salário, criando um mercado consumidor promissor. O fordismo se estabeleceu sobre um tripé magnífico: i) produção em massa; ii) emprego em massa e iii) consumo em massa.

Depois de aceito o ponto de vista que o período de expansão do pós-guerra se estendeu entre 1945 – 1973. Esse período teve como base política e econômica um conjunto de práticas de controle ferrenho do processo produtivo, tecnologias baseadas no motor de combustão, hábitos de consumo caracterizados pelo consumo de massas e configurações de poder político pautado por Estados extremamente interventores, podemos afirmar que esse período pode ser caracterizado como fordista-keynesiano.

É a partir de 1973, que essa forma de organização entra em colapso, iniciando um período de rápida transformação, que trazia com ele um volume de incerteza e de fluidez elevado. Foi nos últimos 40 anos que se instalaram os sistemas de produção baseados nas TICs. Esses novos sistemas de produção e marketing definidos por flexibilidade, mobilidade geográfica e rápidas mudanças nas práticas de consumo. Essas características garantem o título de um novo regime de produção associados a uma virada.

Em meados da década de 70, os modelos adotados no pós-crise de 1929 começam a entrar em declínio, as políticas keynesianas e o Welfare State atingem o seu limite. Essa crise gerada pelo esgotamento desse modo particular de produção, o fordismo, se torna clara já no seu primeiro sintoma: a rápida elevação do déficit público. Além dessa característica, a crise ficou mais evidente com a queda da produtividade do trabalho, a queda da eficiência do investimento público e a redução da poupança na economia. Com isso, os países industrializados passaram a conviver com o fenômeno da estagflação.

Já no início dos anos 80, as economias capitalistas buscavam superar a crise da última década ajustando-se a uma nova base técnica. Com isso, um novo paradigma industrial e tecnológico estaria emergindo, com uma nova base tecnológica caracterizada pela microeletrônica e também pelas telecomunicações. No entanto, as inovações não se restringiram apenas aos processadores microeletrônicos ou as redes de fibra ótica, a forma de organização do trabalho também sofreu uma transformação drástica em suas características; a flexibilização dos processos de produção, com propósitos múltiplos, poupadores de energia, informatizados e automatizados, ou seja, são transformações relevantes na própria essência dos modos de produção.

Podemos conceituar flexibilização como a habilidade de um processo de produção circular em variadas conjunturas de mercado sem deterioração significativa, tanto presente quanto futura, de qualidade, custos e demanda. Sendo assim, podemos classificar como flexível a empresa que conseguir mudar sua estratégia de negócios e suas formas de produção sem denegrir significativamente seu caixa. Pode ser vista a partir da interpretação de estratégia competitiva, portanto, a fundação de métodos administrativos que mantenham uma posição rentável, e que garanta a estabilidade diante das forças que garantem a manutenção da competição industrial.

As novas formas de produção também trouxeram uma otimização do uso das economias de escopo. Ou seja, uma capacidade de introduzir e retirar produtos, peças e componentes da linha de produção, ou fazer pequenas modificações nos produtos e componentes já existentes com a mesma distribuição de trabalho e capital, papel geralmente desempenhado pela empresa fornecedora.

São essas inovações que vão impulsionar o desenvolvimento de novos mercados, renovando os modos de produção e os hábitos de consumo. Já que com a evolução regular do poder de compra na era do fordismo formou categorias de consumidores muito diferenciadas. Desse modo, os consumidores já haviam atingido um patamar elevado de consumo, e com isso, se tornaram mais exigentes, buscando produtos segmentados, que os diferenciasse.

Por último, a capacidade de resposta que a produção flexível fornece para imprevistos do mercado e da própria unidade fabril (falta de suprimentos, variabilidade da matéria-prima, condições dos equipamentos, problemas de coordenação, baixa liquidez no mercado e etc.) é de fato muito superior a observada na organização industrial anterior. Para que isso fosse possível foi necessária uma reestruturação das forças produtivas. A obtenção dessa flexibilidade também foi escoada para o mercado de trabalho, e com as novas ferramentas informacionais trouxe a necessidade de um colaborador com conhecimento polivalente, com capacidade de se antecipar às disfunções e pela pronta intervenção nos imprevistos e acidentes. Essa necessidade tem sua dimensão de importância elevada quanto maior for a variabilidade e a instabilidade com que lida o trabalhador, e também quanto maior o grau de integração e flexibilidade da produção.

 

Renato Carvalho Intakli- @parallaxisds