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Post por Renato Carvalho Intakli, Economista, CEO da parallaxis e membro do comitê industrial da FIESP.

Esse post é o quarto da série “Tempos Modernos”. Caso queira checar os outros três, que são anteriores a este, clique aqui(1),  aqui(2)  e aqui(3)

A Transição do fordismo para o pós-fordismo.

Na análise histórica da Revolução da Tecnologia da Informação, considera-se útil entender os principais fatores da transformação tecnológica em geração, processamento, e transmissão da informação. Foi no decorrer da Segunda Guerra Mundial e no período seguinte que ocorreram as principais descobertas tecnológicas em microeletrônica: o primeiro computador programável e o transistor, fonte primitiva de toda a inovação, foram o verdadeiro âmago da revolução da tecnologia da informação no século XX.

Porém, de fato, em meados da década de 70 as novas tecnologias da informação começam a  se difundir amplamente. Essa nova tecnologia da informação pode ser classificada em três inovações essenciais para o novo paradigma tecnológico que florescia: microeletrônica, computador e telecomunicações. Esse tripé inter-relacionado constituiu a história das inovações tecnologias baseadas em microeletrônica- Assim, o microprocessador, o principal dispositivo de difusão da microeletrônica, foi inventado em 1971 e começou a ser difundido em meados dos anos 70. O microcomputador foi inventado em 1975 e o primeiro produto comercial de sucesso, o Apple II, foi introduzido em 1977, por volta da mesma época em que a Microsoft começava produzir sistemas operacionais para microcomputadores. A fibra ótica foi produzida em escala industrial pela primeira vez no início da década de 70. Além disso, em meados da mesma década se desenvolveu uma nova e revolucionária rede eletrônica de comunicação que veio a ser tornar a Internet.

Assim, o microprocessador possibilitou o microcomputador; os avanços em telecomunicações possibilitaram que os microcomputadores funcionassem em rede. Novos softwares foram estimulados pelo crescente mercado de microcomputadores que, por sua vez, explodiu com base nas novas aplicações e tecnologias de fácil utilização, possibilitando uma nova forma de organização do trabalho, mais flexível, com um alto índice de rotatividade. Nesse sistema tecnológico que estamos totalmente imersos é inegável a importância dos contextos históricos específicos, e da interação entre a tecnologia e sociedade. Essas tecnologias da informação representaram um salto qualitativo na difusão maciça da tecnologia em aplicações comerciais e civis, devido a sua acessibilidade e custo cada vez menor, com qualidade cada vez maior.

Para entender as raízes sociais da Revolução da Tecnologia da Informação nos EUA é preciso conhecer o processo de formação de sua fonte tecnológica mais notável: o Vale do Silício. Foi lá que o circuito integrado, o microprocessador e o microcomputador, entre outras tecnologias importantes foram desenvolvidas. Em oposição à rigidez fordista de Michigan o Vale do Silício foi transformado em ambiente de inovação pela convergência de vários fatores, atuando no mesmo local: novos conhecimentos tecnológicos; um grande grupo de engenheiros e cientistas das principais universidades da área; fundos generosos vindo de um mercado de “capitais de risco” e do Departamento de Defesa; e, nos primeiros estágios, a liderança institucional da Universidade de Stanford. Assim que os conhecimentos se instalaram no Vale do Silício, o dinamismo de sua estrutura industrial e a contínua criação de novas empresas transformaram esse lugar no centro mundial da microeletrônica, no inicio da década de 70.

A quarta revolução tecnológica, ou revolução informacional, criou a necessidade dos mercados de trabalho e consumo serem flexíveis. Ao inserir esse novo paradigma de produção, a terceira revolução tecnologia permitiu que grandes empresas empregassem uma estratégia mercadológica de diferenciação e segmentação.

Para concluir, a diferenciação e segmentação dos produtos assumem um caráter seletivo, excludente, mas ainda pautado nas massas consumidoras, ou seja, atender mercados menores e segmentados passa a ser vantajoso. A própria Apple adotou políticas de limites de consumo, onde os seus consumidores poderiam comprar apenas três unidades dos seus iPhones.

A lição fundamental dessas histórias interessantes têm dois aspectos: o desenvolvimento da Revolução da Tecnologia da Informação contribuiu para a formação dos meios de inovação onde as descobertas e as aplicações interagiam e eram testadas em um repetido processo de tentativas e erros, ou seja, aprendia-se fazendo. Esses ambientes exigiam concentração espacial de centros de pesquisa, instituições de educação superior, empresas de tecnologia avançada, uma rede auxiliar de fornecedores provendo bens e serviços e redes de empresas com capital de risco para financiar novos empreendimentos.

O papel decisivo desempenhado pelos meios de inovação no desenvolvimento da Revolução da Tecnologia da Informação: concentração de conhecimentos científico-tecnológicos, instituições, empresas e mão-de-obra qualificada são as forjas da inovação da Era da Informação. As maiores áreas metropolitanas antigas do mundo industrializado são os principais centros de inovação e produção de tecnologia da informação, fora dos EUA. A força cultural e empresarial da metrópole faz delas o ambiente privilegiado dessa nova revolução tecnológica, desmistificando o conceito de inovação sem localidade geográfica na Era da Informação.

A explicação contextual para a trajetória da revolução tecnológica é muito ampla e aberta a interpretações alternativas. Os efeitos positivos, a longo prazo, das novas tecnologias da informação no crescimento econômico e na qualidade de vida são indiscutíveis nos registros históricos. A Revolução da Tecnologia da Informação foi essencial para a implementação de um importante processo de reestruturação do sistema cultural, social e econômico. Atividades, grupos sociais e territórios por todo o globo estão conectados, em meados dos anos 90, em um novo sistema tecnológico que começou a se formar na década de 70.

As funções e os processos dominantes na Era da Informação estão cada vez mais organizados em torno de redes. A exclusão ou inclusão dos sistemas de redes e a arquitetura das relações entre eles, possibilitada pelas tecnologias da informação em tempo real, definem os processos e as funções que controlam aspectos centrais em nossa sociedade.

Esses aspectos ressaltam que liderar o conceito das formas e da estrutura das redes é, antes de tudo, reorganizar e controlar as relações de poder na sociedade pós-moderna. A sociedade em rede é, por enquanto, uma sociedade capitalista fortemente centrada na dinâmica dos EUA e, por isso, dominam ferramentas-chave para a produtividade e a competitividade na Era da Informação.