*Por Rafael Azevedo, Sócio e Economista da Parallaxis Economics & Data Science

John “Bigode” Keynes certa vez disse: “Sabemos que a taxa de investimento depende da relação entre a taxa de juros e a eficiência marginal do capital. Este último, por sua vez, é uma relação entre o preço de oferta (renda mínima necessária para justificar o investimento) e o rendimento potencial”.

Não pretendo neste post resumido abordar a relação dos investimentos com a taxa de juros. Posso fazer isso em outro post, que talvez complemente este.

Segundo o Bigode, a formação bruta de capital fixo (vulgo investimento, FBKF) é uma função da taxa de juros (neste caso é inversa, se juros aumentam, investimento cai) e das expectativas de crescimento da economia e de lucro futuro (que se aumenta neste caso, também aumentam os investimentos).

Interessado em testar essa relação de investimento vs expectativas/lucro de maneira empírica, comecei a escarafunchar em busca de dados que pudessem medir as expectativas e lucro futuro. Claro, não há uma medida perfeita, mas convenhamos que a literatura nos dá um empurrãozinho de que as ações refletiriam exatamente isto, desde que não estejam numa bolha.

Sendo assim, será que o Ibovespa conseguiria explicar as variações na formação bruta de capital fixo brasileiro? Primeiro, vamos a eles: os dados. Tirei essa foto bonita abaixo.

Os dados estão trimestralizados. Ibovespa corresponde a média do período e o índice de formação bruta de capital fixo é aquele fornecido pelo IBGE, do PIB.

Os dados estão trimestralizados. Ibovespa corresponde a média do período e o índice de formação bruta de capital fixo é aquele fornecido pelo IBGE, do PIB.

Parece a olho nu que sim. Olhando com um pouco mais de atenção, vemos uns padrões sazonais na FBKF. Melhor trabalhar com a série sem esses platôs, portanto escolherei os dados dessazonalizados pelo próprio IBGE. Nova foto abaixo.

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Interessante! Mas quem causa em quem? Hein?

Antes, transformei as séries em log (transformação monotônica, ou seja, não altera p… nenhuma sua curva). Em seguida fiz a primeira diferença (Xt – Xt-1). Isso serve para além de tirar a tendência da série, trabalhando de forma estacionária, serve para enxergarmos um efeito de elasticidade no modelo.

Sendo assim, Granger (um teste estatístico de causalidade) nos responderá a questão.

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Como se vê, Granger rejeita (p=0.00, probabilidade de ser obtido ao acaso) a hipótese de que o Ibovespa não é a causa dos investimentos e aceita (p=0.22) a hipótese que os investimentos não tem relação tão forte com o Ibovespa.

Ok. O que esperar dessa relação então. Na foto abaixo, quanto mais o Ibovespa sobe, mais os investimentos sobem, então, relação positiva! Ponto pro Bigode.

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Vamos ver isto melhor. Aplicando os métodos de Vetores Auto Regressivos (famoso VAR), podemos ter uma ideia.

 

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No primeiro modelo, inclui 4 lags (trimestres anteriores) para ver quem tinha mais relevância sobre os investimentos feitos de maneira contemporânea. Vemos que os investimentos atuais são afetados pelos dois trimestres anteriores.  Mas no segundo trimestre anterior a relação é negativa… Talvez isso seja explicado assim: “Já que eu, empresário, investi 2 trimestres consecutivos, nesse trimestre vou segurar, pra dar uma olhada na economia… se necessário arrumar a casa”. Bigode diria que é o “Principio da Demanda Efetiva”.

Já o Ibovespa tem relevância se subiu no tri anterior apenas. Ou seja, as expectativas de lucro (demanda esperada?) subiram no passado, o que levou os empresários a investirem no momento seguinte, aproveitando também a capitalização que suas ações tiveram. Hum…

No modelo 2, retirei os que não tinham relevância. O critério AIC (na comparação de modelos, quanto menor, melhor) melhorou. Meus coeficientes se ajustaram um pouco. E claro, perdi por explicativo (R² menor) porque tenho menos variáveis. Tudo bem.

O modelo 3 foi o resultado de vários testes que fiz. Ao incluir o Ibovespa contemporâneo, o investimento de dois tri anteriores perdeu um pouco de significância. Desta forma, resolvi tirá-lo e manter o Ibovespa corrente.

Olha que interessante…. Este modelo diz que hipoteticamente, um aumento de 10% no Ibovespa do tri corrente, impacta os investimentos em 0,5% no mesmo tri e até 1,1% no trimestre seguinte. Com esses dados não consigo dizer que o Bigode está errado. Pelo contrário, está empiricamente batendo sua teoria.

Será que esse recente rally da Ibovespa, baseado na possível substituição do atual governo, melhorará os investimentos dado essa alteração de expectativas?

Keynes argumenta que seria “insensato” formar expectativas sobre uma base muito incerta; que somos mais (ou um tanto) confiantes sobre aquilo tende a ser mais importante. Isso gera certo grau de assimetria, e, portanto, o empreendedor tende a projetar o atual estado de coisas no futuro. Dessa forma, o estado de expectativas de longo prazo não depende apenas da previsão feita, mas sobre a confiança colocada na previsão. E claro, caso essa expectativa não venha a ser atingida poderá haver uma completa reversão de expectativa. O que ocorrerá com os investimentos nos próximos tris então?! Será que as expectativas se consolidam?! A ver.